quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

Interfaces da pesquisa




Antonio Bosco de Lima

O mundo da pesquisa comporta interfaces variadas. Abordo neste artigo duas interfaces: a busca da facilidade para o pesquisador e a pesquisa encomendada para “provar” algo.

Quando fazia meu mestrado em administração escolar pela UNICAMP, “pesquisador” oriundo da rede pública, iniciei o processo investigativo sem a mínima fundamentação teórico-cientifica sobre pesquisa. Trilhar os primeiros passos parece ser uma barreira instransponível para aqueles que adentram ao mundo da pesquisa de forma imatura.

Meu orientador de então me apresentou ao saudoso prof. Tragtenberg, comentando que eu estava pesquisando sobre autogestão e organização escolar. Tragtenberg, na altura da aposentadoria compulsória, disse que o melhor caminho era ir para a Espanha, lá sim, eu iria aprender alguma coisa sobre o tema. Não contente, abordei pela segunda vez o Tragtenberg, queria marcar um encontro com ele, abordei-o no corredor, e ele mais uma vez, incisivo, declarou: você já foi à biblioteca e fez um levantamento sobre o tema?

Nós professores pesquisadores mais experientes convivemos com isto diuturnamente: os alunos que nos abordam buscando a facilidade. Alguns de nós, mais “didáticos” atendemos solicitamente aos alunos. A questão consiste em que ser pesquisador significa ser um garimpador: é uma árdua tarefa esta de investigar, levantar fontes, analisá-las. Cada pesquisador constrói seu caminho, seu percurso, de forma muito particular, curiosa e criativa. Se não for assim ele não será um bom pesquisador. Professor orientador é aquele que não facilita a vida do aluno, mas, ao contrário, provoca, questiona, problematiza. Facilitando, ele ajuda o aluno a ser um mero reprodutor e não um criador.

O segundo elemento diz respeito as nossas abordagens já comprovadas ou que queremos comprovar. Tal modelo de pesquisa parece mais uma enquête que quer saber de uma determinada amostra pesquisada, de um produto, que está no mercado ou que vai ser lançado no mercado. É assim com coisas como o cigarro, a cerveja, mas pode ser também assim com um candidato, com um partido ou com modelos de organização do trabalho e sindical.

Nada mais útil que utilizar esta modalidade de pesquisa para saber o que o leitor, eleitor, enfim, o consumidor pensa.Por meio das respostas e do mapeamento buscasse aprimorar a relação comunicativa ou de cooptação. Este não é um modelo de pesquisa problematizadora; trata-se de uma forma político pseudo-científica de preparar o caminho para a condução da “organização” seja ela empresarial (privada) ou institucional (pública), seja comercial, seja política, seja sindical, seja educacional.

Docente da FACED/UFU (boscodelima@gmail.com).

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