Antonio
Bosco de Lima
O
mundo da pesquisa comporta interfaces variadas. Abordo neste artigo duas
interfaces: a busca da facilidade para o pesquisador e a pesquisa encomendada
para “provar” algo.
Quando
fazia meu mestrado em administração escolar pela UNICAMP, “pesquisador” oriundo
da rede pública, iniciei o processo investigativo sem a mínima fundamentação
teórico-cientifica sobre pesquisa. Trilhar os primeiros passos parece ser uma
barreira instransponível para aqueles que adentram ao mundo da pesquisa de
forma imatura.
Meu
orientador de então me apresentou ao saudoso prof. Tragtenberg, comentando que
eu estava pesquisando sobre autogestão e organização escolar. Tragtenberg, na
altura da aposentadoria compulsória, disse que o melhor caminho era ir para a
Espanha, lá sim, eu iria aprender alguma coisa sobre o tema. Não contente,
abordei pela segunda vez o Tragtenberg, queria marcar um encontro com ele,
abordei-o no corredor, e ele mais uma vez, incisivo, declarou: você já foi à
biblioteca e fez um levantamento sobre o tema?
Nós
professores pesquisadores mais experientes convivemos com isto diuturnamente:
os alunos que nos abordam buscando a facilidade. Alguns de nós, mais
“didáticos” atendemos solicitamente aos alunos. A questão consiste em que ser
pesquisador significa ser um garimpador: é uma árdua tarefa esta de investigar,
levantar fontes, analisá-las. Cada pesquisador constrói seu caminho, seu
percurso, de forma muito particular, curiosa e criativa. Se não for assim ele
não será um bom pesquisador. Professor orientador é aquele que não facilita a
vida do aluno, mas, ao contrário, provoca, questiona, problematiza.
Facilitando, ele ajuda o aluno a ser um mero reprodutor e não um criador.
O
segundo elemento diz respeito as nossas abordagens já comprovadas ou que
queremos comprovar. Tal modelo de pesquisa parece mais uma enquête
que quer saber de uma determinada amostra pesquisada, de um produto, que está
no mercado ou que vai ser lançado no mercado. É assim com coisas como o
cigarro, a cerveja, mas pode ser também assim com um candidato, com um partido
ou com modelos de organização do trabalho e sindical.
Nada
mais útil que utilizar esta modalidade de pesquisa para saber o que o leitor,
eleitor, enfim, o consumidor pensa.Por meio das respostas e do mapeamento
buscasse aprimorar a relação comunicativa ou de cooptação. Este não é um modelo
de pesquisa problematizadora; trata-se de uma forma político pseudo-científica
de preparar o caminho para a condução da “organização” seja ela empresarial
(privada) ou institucional (pública), seja comercial, seja política, seja
sindical, seja educacional.
Docente
da FACED/UFU (boscodelima@gmail.com).
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